O autismo, seu espectro e a escola

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O autismo, seu espectro e a escola

Rodrigo Hübner Mendes para o ECOA UOL

Segundo estudos, a estimativa é de que, aproximadamente, uma a cada 59 crianças tenha alguma característica de autismo Imagem: Getty Images

Durante mais de cinco anos, convivi intensamente com Paulo Sérgio, aluno da nossa então escola de artes visuais que tinha Transtorno do Espectro do Autismo (TEA). Antes de ir para a aula, Paulo seguia um ritual que se repetia a cada quinta-feira e que passou a ser parte da minha própria rotina. Vinha até minha sala, batia na porta e dizia em voz alta: “posso entrar, Rodrigo Mendes?”. Fazia questão de recebê-lo para perguntar como tinha sido a semana. Sem cerimônia, ele não dava muita bola e pedia para usar meu computador, onde fazia pesquisas sobre música. Era extremamente talentoso nesse campo. Memorizava melodias e letras com impressionante facilidade e sempre animava nossos eventos de final de ano, dando uma palhinha da sua vertente de barítono. Com o tempo, percebi que Paulo tinha muita facilidade com cálculos matemáticos. Mais do que isso, descobri algo notável. Ao perguntar em qual dia da semana havia caído uma determinada data do passado, pensava por poucos segundos e respondia com precisão.

Nos anos 1940, os austríacos Leo Kanner e Hans Asperger produziram estudos que iniciaram a base do que se conhece sobre o autismo. O tema passou a ser vastamente investigado por inúmeros pesquisadores, como o neurologista inglês Oliver Sacks, que trouxe uma abordagem literária em obras que se tornaram populares e palatáveis ao senso comum. Um Antropólogo em Marte ilustra essa contribuição. Mais recentemente, essa especificidade evoluiu para o conceito de um espectro que contempla diversas nuances e tipos de características. Segundo o Manual de Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, criado pela Associação Americana de Psiquiatria, o TEA é um transtorno do desenvolvimento neurológico, caracterizado por dificuldades de comunicação e interação social e pela presença de comportamentos e interesses repetitivos, cuja gravidade é variável. Interessante notar que os casos denotam um curioso contraste entre tais dificuldades e habilidades diferenciadas, como as que eu observava em Paulo Sérgio.

Graças ao amadurecimento do campo da Educação Especial, hoje pensada internacionalmente numa perspectiva inclusiva, alunos com TEA estão frequentando as escolas comuns e desfrutando do insubstituível benefício de conviver com outras crianças e adolescentes. É claro que essa participação, viabilizada pelas políticas de inclusão escolar, envolve uma importante complexidade. Não basta simplesmente abrirmos as portas da escola e garantirmos a matrícula. Para que o processo corra bem e permita a construção da autonomia do estudante, um amplo conjunto de estratégias se faz necessário. Dentre elas, merecem destaque tempo para o planejamento das aulas, formação continuada e trabalho colaborativo dos educadores, assim como o engajamento das famílias no cotidiano escolar.

Centenas de experiências exitosas já apontam caminhos para a viabilização da educação inclusiva. Um exemplo que tenho acompanhado de perto desde 2005 é o da Escola Vera Cruz, narrado em uma tese da pedagoga Gláucia Affonso. É possível ver ali que, apesar de todas as dúvidas com as quais a ciência ainda se depara em relação ao autismo, a escola comum pode se transformar para atender com qualidade todo aluno. Mais do que isso: a experiência mostra que isso enriquece não apenas a vivência do estudante com TEA e sua família, mas também a dos demais alunos e profissionais da instituição. O caso do Vera foi detalhado pelo livro “Educação Inclusiva na prática”, lançado em 2020 pela Fundação Santillana e a Editora Moderna. A publicação traz também outros exemplos de boas práticas nas cinco regiões do Brasil, em todos os níveis de ensino, e um capítulo introdutório com conceitos fundamentais da concepção inclusiva. O livro é gratuito e está disponível para download em formato acessível. Sua leitura pode ser um ótimo impulso para educadores que vivenciam os desafios de tornar a inclusão uma realidade em suas salas de aula e para pessoas que desejam embarcar na premente missão de se construir uma educação de qualidade em nosso país.

 

ONG Sorriso Novo
ONG Sorriso Novo
Olá! A ONG Sorriso Novo é uma organização sem fins lucrativos e nasceu do sonho de seus fundadores em difundir ações solidárias nas mais diversas áreas, tais como: saúde, artes em geral, infância e adolescência, esporte, congressos e palestras, educação de pessoas carentes, idosos, população de rua, comunidades carentes. Desde 2001 temos atuado no Complexo da Maré promovendo diversas contribuições às famílias da comunidade. Com pouco mais de 10 crianças deficientes apadrinhadas, atualmente buscamos firmar projetos e parcerias a fim de aumentar o nosso alcance e ser capaz de oferecer maior assistência a população carente.

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