Para lá do silêncio, para lá da luz - Parte II

Feche os olhos, tape os ouvidos, imagine a sua vida assim para sempre! Apesar da perda das cores e dos sons, a vida continua a fazer sentido, continua a haver lugar à felicidade, ao crescimento, ao futuro. É isso que se ensina todos os dias no colégio António Aurélio da Costa Ferreira, em Lisboa, o único centro para surdocegos em Portugal.

Parte I

Atividades e pessoas

Nas paredes do atelier há máscaras de gesso com a cara de algumas das crianças. Há barro, carpintaria, pinturas… Entramos. A Ezanilza está acabando uma jarra em barro. Está nervosa. As arestas não ficaram como a sua perfeição lhe exige. Acaba a obra com o desenhar em relevo de um ramo de flores com a ponta de um lápis. Depois, num emaranhado de gestos e alguns sons distorcidos, de quem já ouve faz tempo, informa que quer que a Juliana – outra menina que ainda tem alguns resíduos de visão – venha pintar as flores. “A Ezanilza tem muita confiança nos olhos, diz Jú.”.

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Culinária e natação Fotos: CED António Aurélio da Costa Ferreira

Na sala vermelha os meninos têm menos capacidades. Quando um menino aprende a mastigar, a novidade é tida como uma vitória estrondosa. E no dia seguinte ele pode esquecer todo o trabalho feito.
No chão está “o Bebé”. Um menino de cinco anos que ainda não tem um diagnóstico completo das suas deficiências, e com uma saúde muito débil. Foi adotado, rebatizado e amado. A sua história é simples: já nasceu para ser adotado, só que quando os novos pais souberam que afinal tinha uma doença, desistiram. A médica do hospital foi-se apaixonando pelo caso, levou-o para casa, serviu de família de acolhimento. Até que um dia descobriu que o Frederico – é assim que lhe chamam – fazia parte da família. Agora o tribunal também decidiu que assim será por muito tempo. Frederico adora as luzes fluorescentes na câmara escura. Adora brincar no chão e logo a seguir ao almoço vai para a porta à espera que o novo pai chegue para o levar.

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Almoço Foto: CED António Aurélio da Costa Ferreira

Antigamente, muitos meninos não reconheciam os pais, quando passaram a os reconhecer foi uma grande vitória, uma conquista progressiva, um sinal do muito trabalho em conjunto com as famílias.
Noutra sala, o Bruno conta com a voz muito presa que no fim-de-semana comeu caracóis e bebeu cerveja. Já passou a barreira dos vinte anos há algum tempo. Conta ainda que foi cortar o cabelo e arremata a sua descrição com a notícia de que a irmã teve um bebê. “O Bruno só gosta de pessoas que usem gravata. No ano passado após uma febre ficou em coma. Perdeu grande parte das aprendizagens do passado, agora, está a reencontrar-se outra vez”. Sempre que lhe apresentam uma mulher, invariavelmente, pergunta: “Queres namorar comigo?”.

Participação das famílias, colônias de férias, experiências no mundo

O trabalho com os pais é sem dúvida um passo importante, desse trabalho nascem muitas vezes novas esperanças para quem já não as tinha, ou para quem sem querer, as tinha arrumado numa gaveta perdida. É muito importante ir passando toda a aprendizagem que se realiza para casa, “cada gesto novo, cada nova competência, saber partilhar as dificuldades e também os sucessos, as esperanças e os sonhos.

“A grande maioria das crianças vai para casa de quinze em quinze dias, mas há também quem vá todos os fins-de-semana, todos os dias… E há os que permanecem na instituição sempre…

Será que por serem cegas e surdas estas crianças e estes adultos perdem a noção do mundo? Viajar, para eles, fará algum sentido? Claro que sim. As viagens de estudo e as férias são uma componente muito importante, uma forma de motivar alunos, educadores e famílias.

Há colônias de férias em conjunto com os pais uma vez por ano, e com direito a praia e tudo. Visitas aos lugares históricos e mil passeios. Todos os meninos já brincaram com neve da Serra da Estrela – um deles levou a brincadeira tão a sério que se despiu totalmente para que o contacto com o frio fosse maior. Já conheceram as belezas de Alcoutim. Fizeram troca de instalações com uma instituição espanhola que lhes permitiu que conhecessem a cidade de Vigo. E com algumas artes para levarem água ao moinho e patrocínios bem negociados, no ano passado foram à Madeira durante uma semana.

“Eles apercebem-se claramente que estão em lugares diferentes”. Estes passeios, para além de servirem de estímulo, servem como tema de trabalho nas semanas antes e depois da partida.
E se pensa que o dia-a-dia destas crianças é de clausura no colégio está muito enganado, eles vivem as pequenas coisas da vida: vão ao cinema, ao teatro, ao McDonalds… Adoram a sensação do silêncio na pele, as pipocas, as vibrações a tocar no corpo, os resíduos de cores no fundo da tela. Nunca vão a lado nenhum sem saberem o que vão fazer, “antes de cada passeio é feito muito trabalho, conta-se a história, trabalha-se o tema”. E também há viagem, os transportes públicos, a escolha dos caminhos, tudo decidido por sinais e gestos.

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Decoração de pneus que serão assentos, canteiros e outras utilidades que a imaginação lhes permite dar.
Foto: CED António Aurélio da Costa Ferreira

Há pouco tempo, visitaram a quinta pedagógica, decidiram almoçar num restaurante: “as crianças pareciam uns doutores comendo… O dono do restaurante, depois das primeiras reservas, acabou por convidá-los a voltarem”. O mesmo se passa no cabeleireiro, na depilação, só não vão às discotecas. Mas se Maomé não vai à montanha… No ano passado, uma empresa montou uma discoteca no refeitório do colégio: “eles adoraram”. Tal como adoram as visitas à Feira Popular: “andam em tudo!”. Num dos passeios, pararam numa área de serviço na estrada, e orgulhosos os educadores ouviram a frase: “há aí muita gente que anda e vê mas são bem mais deficientes!”

Tó Zé

A conversa foi muito mais fácil do que podia parecer: uma das educadoras coloca-se à frente do Tó Zé e cada um deles agarra as mãos do outro. Começa a dança das mãos, da linguagem, da mensagem transmitida por gestos: a utilização da linguagem dos surdos através do tato. De fora parece uma dança no silencio. É difícil fazer a primeira pergunta, apenas sabemos as palavras, mas estranhamente tentamos pensar em gestos.

Tó Zé faz encadernações na Biblioteca Nacional, antes produzia as capas dos livros, mas como foi perdendo a visão foram-lhe dando trabalhos mais básicos onde pudesse apenas trabalhar com as mãos. Agora, costura as lombadas dos livros.

Além de trabalhar, gosta muito de conversar, ir à associação de surdos, e “é um festeiro”. Tem uma filha. Uma adolescente que nasceu de um casamento que já acabou. A filha sabe a linguagem gestual, juntos vão para a noite, para os bares, e claro, às compras nos centros comerciais e ao café. Um dos passos mais importantes na vida do Tó Zé foi uma viagem que realizou à Bélgica a um congresso de surdocegos. Foi um marco na sua vida, conheceu muitas pessoas na mesma situação. Em Portugal não há muitas pessoas com o mesmo problema vivendo na sociedade de uma forma ativa.

Tó Zé descobriu que nos outros países existem mais soluções, outras formas de resolver os problemas de pessoas como ele. “Há mais lugares para as pessoas que não produzem tão rapidamente.” A viagem abriu-lhe novos horizontes e sobretudo recebeu informações de como criar uma associação de surdocegos. Dá vontade de lhe perguntar se ele se considera uma espécie de herói. O problema é que este conceito não existe na linguagem gestual. Acabamos por perguntar: você se considera uma pessoa importante por tudo o que já conseguiu? “Não, não me sinto importante, mas sei o meu lugar na luta para o alerta do Governo e da sociedade para a necessidade que temos de intérpretes para quando vamos a um médico, a um tribunal… Temos que arranjar formas de acabar com as barreiras da comunicação.”
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Sala de Bem-estar e Estimulação Sensorial Fotos: CED António Aurélio da Costa Ferreira

Tó Zé assume que é vaidoso, gosta de estar bonito, de ter roupa as adequadas e perfume. “Gosto de me mostrar bem.” Mas como é que ele sabe se gosta de uma coisa? “Sente-se através das mãos. Os amigos às vezes ajudam-me a comprar as coisas. Dizem se é muito verde, ou mais azul…” Surge outra pergunta: Você se lembra das cores? “Sim, mas agora já não as vejo”. A conversa continua, depois de algum tempo a tradutora desabafa: “estou ficando doida, como e que eu vou dizer-lhe isto?”. Tó Zé, do seu jeito, logo arranja uma maneira.

No Refeitório, na sala, no resto da escola

No refeitório, no meio do silêncio, o barulho ganha espaço. O que se ouve ouve-se bem, e os sons ganham outro peso. Apesar de não ser mais barulhento do que um restaurante na hora de maior movimento, os sons ganham novos contornos. Começa a estranha dança das bandejas. As crianças mexem-se pela sala com total desprendimento, com as bandejas nas mãos esperam em filas que alguém os sirva, depois voltam para o seu lugar, sentam-se e comem. É raro as crianças interagirem umas com as outras, é mesmo muito raro, e quando isso acontece é devido ao estímulo dos educadores. Cada um tem o seu caminho, o seu lugar, e há quem leve isso muito a sério. Algumas crianças, umas vezes por defesa, outras por teimosia, fazem sempre o mesmo caminho, têm rituais… E isso provoca choques – e aqui a palavra pode até ser bem mais abrangente.

No meio da sala, uma menina dança agarrada as caixas de som. São as mãos que percebem os sons. Quando a música não tem suficientes baixos para sentir o ritmo, muda a estação de rádio. Dança, mexe o corpo, as ancas, a cabeça. Todo o corpo gira, as mãos captam os sons como se fossem um transmissor. O ritual repete-se e quem vê sente-se um intruso.

No colégio, os pensamentos muitas vezes não têm segredos para quem sabe ler os significados nas mãos.

No recreio, em cima de um cavalinho de pau e mola que oscila, está a Catarina. Ela conhece bem o espaço, apesar de não ouvir e não ver nada, mexe-se com total liberdade. Trata o cavalinho por tu. As suas mãos mexem-se numa estranha dança. O que se passa? “Ela está pensando.” E logo alguém traduz: “o cavalo parou! ” Há quem pense com palavras, há quem pense com gestos.

Com um movimento forte, a Catarina volta a balançar o cavalo de pau na mola. Os cavalos são a sua paixão, graças aos cavalos – verdadeiros e não de pau – o seu corpo ganhou uma nova postura, passou a ter um melhor relacionamento com os outros. Os seus dias tornaram-se diferentes. O seu calendário passou a ter como referência os cavalos… ou como os adultos gostam de chamar: o tratamento de hipoterapia.

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Jardim Sensorial Fotos: CED António Aurélio da Costa Ferreira

Tudo acontecendo

Ao fim do dia, as crianças vão tomar banho e arrumar-se. Tirando os menores, todos fazem as tarefas mais elementares sem precisar de ajuda. “É muito importante torná-los o mais independentes possível.” Como os olhos não vêem e ali nunca aparecem desconhecidos, não há grandes pudores quando se tira a roupa. Cada um segue em frente, escova os dentes, faz as necessidades mais elementares, despe-se, toma banho, veste o pijama. As gavetas das cuecas têm pequenas cuecas recortadas coladas por fora, o mesmo se passa com os soutiens e o resto. Uma criança de dois anos está sentada no penico, mesmo sem fazer nada é obrigado a permanecer… é assim que se conquista cada passo rumo à independência.

As educadoras, como um maestro, vão orientando as operações com gestos tocados. Parece mímica. Sempre que transmitem as suas ordens e conselho, dizem em voz alta o que falam com as mãos. Porquê? A resposta é simples: “senão era tudo um silêncio!” O engraçado é que, mesmo quando nos respondem, as mãos não param.

Todas as estrelas no céu

O calendário e o tempo passam com ritmos diferentes dentro deste colégio, mas o Natal e as festas populares nunca passam sem festa. Para o Natal deste ano, cada pessoa recebeu em casa, juntamente com o convite, uma estrela amarela com o seu nome. Antes do almoço de Natal, os meninos representaram uma peça de teatro sobre O Pequeno Príncipe”. Pais e amigos foram ver a representação. Um trabalho de equipe que mobilizou muita gente.

No Colégio vive também um pequeno grupo de meninos sem deficiências – os “ouvintes” – esses meninos vão muito em breve para outros lares da Casa Pia de Lisboa, instituição que tutela o colégio. Uma oportunidade desta poder desenvolver novos valores.

Os meninos “ouvintes” também entraram na peça de Natal. Para além de ler as falas de cada personagem, orientaram, vestidos de preto, os meninos surdocegos no palco improvisado. “Parecia um espetáculo de marionetes a fingir”. Todos os personagens estavam vestidos e maquiados para representarem os seus papéis. A semelhança destes meninos com o Pequeno Príncipe é incrível: “Todos eles nos marcam com as suas diferenças e o seu cativar, com a sua magia”.

No final da peça, meninos, educadores, empregados e pais colaram as estrelas amarelas com o seu nome no cenário azul da parede. Um céu azul ficou iluminado de estrelas amarelas. É que tanto nesta escola como na vida, o mundo só se faz com a participação de todos. Toda a gente tem o seu lugar, mesmo que para lá do silêncio, mesmo que para lá da luz.

Fonte: BengalaLegal
ONG Sorriso Novo
ONG Sorriso Novo
Olá! A ONG Sorriso Novo é uma organização sem fins lucrativos e nasceu do sonho de seus fundadores em difundir ações solidárias nas mais diversas áreas, tais como: saúde, artes em geral, infância e adolescência, esporte, congressos e palestras, educação de pessoas carentes, idosos, população de rua, comunidades carentes. Desde 2001 temos atuado no Complexo da Maré promovendo diversas contribuições às famílias da comunidade. Com pouco mais de 10 crianças deficientes apadrinhadas, atualmente buscamos firmar projetos e parcerias a fim de aumentar o nosso alcance e ser capaz de oferecer maior assistência a população carente.

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