Quando as terminologias importam

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Quando as terminologias importam

Devo usar “PcD” ou “Crianças Especiais” para me referir à pessoa com deficiência?

Denis Deli para o jornalcruzeiro.com.br

A deficiência não deve ser atrelada à pessoa, pois é uma responsabilidade do “meio” ser acessível para todos os cidadãos. Crédito da foto: Divulgação

Você sabe qual a maneira correta de se referir à pessoa com deficiência? Aliás, se existe uma maneira correta, quer dizer que existem outras que são erradas. Sim, erradas! Podemos até arrumar desculpas e justificativas para a utilização de termos inadequados, mas eles continuarão sendo errados!

Muitos segmentos sociais vivem um momento de “afirmação”. Ou seja: de luta pela garantia plena dos seus direitos. Cabe a nós, como sociedade, respeitar e reconhecer essa luta. Isso é inclusão.
Você precisa saber que todo segmento em fase de afirmação tem um ingrediente importante: “militância”. Nunca devemos subestimar o poder, nem a importância, que isso tem.

No movimento LGBTQIA+, por exemplo, o correto é utilizar a expressão “relacionamento homossexual” ou “relacionamento homoafetivo”? No movimento de igualdade racial, o correto é utilizar “pessoa negra” ou “preta”?

Essas questões podem parecer apenas detalhes, mas são fundamentais na defesa de seus segmentos, pois representam o “reconhecimento da sua luta”.

Em 2006, a Convenção dos Direitos da Pessoa com Deficiência, proclamada pela Organização das Nações Unidas (ONU), determinou que o termo correto é “pessoa com deficiência”.

Isso quer dizer, que você NÃO pode usar termos como: portadores de deficiência, portadores de necessidades especiais ou deficiente.

A terminologia representa uma mudança de conceito: valoriza a pessoa, que passa a vir em primeiro plano na frase. Outro ponto importante é que a “deficiência” deixa de ser um “atributo” da pessoa e passa a ser atribuída ao “meio”. Ou seja: é uma pessoa cujo meio deve ser acessível.

Quando você utiliza o termo “deficiente”, você está atribuindo a “responsabilidade” da deficiência à pessoa. Se existissem apenas rampas, ao invés de escadas, qualquer pessoa em cadeira de rodas, por exemplo, poderia ter acesso a qualquer lugar. Ou seja: é a pessoa ou o meio que precisa mudar? Se todos nós fôssemos fluentes em Libras — língua brasileira de sinais –, a comunicação não seria um problema para a pessoa surda. E por aí vai.

Agora pense no termo “portador de deficiência”. Ele também atribui à pessoa a “responsabilidade” pelas barreiras de comunicação ou acessibilidade, usando a questão da deficiência para justificar a falta de acessibilidade no “meio”. Além do mais, você só “porta” algo que, em algum momento, pode “deixar de portar”. Isso não acontece com a questão da deficiência.

Mas o pior exemplo ainda está por vir. CUIDADO! Nunca utilize o termo “necessidades especiais” ou “pessoas especiais”. Isso pode parecer simpático, mas é totalmente preconceituoso. Quem nunca se deparou com a expressão “crianças especiais” para se referir a uma criança com deficiência?

É comum que as pessoas utilizem o termo “especial” com a finalidade de “suavizar” a questão da deficiência. Mas isso não deve ser feito.

Como já vimos, a deficiência não deve ser atrelada à pessoa, pois é uma responsabilidade do “meio” ser acessível para todos. Quanto mais suavizarmos, ou escondermos, a deficiência, menos pressionaremos o “meio” a se tornar acessível.

Não tenha medo. Utilize o termo “deficiência” na frase. Você não vai agredir nem menosprezar ninguém. Pelo contrário: demonstrará que você respeita e reconhece sua luta!

Preste atenção nestas frases: aluno com deficiência, filho com deficiência, vizinho com deficiência, amigo com deficiência etc. Estes são exemplos corretos! Utilize.

Mas e o termo “PcD”, você pode utilizar? A resposta é: depende. Ele só deve ser utilizado quando for uma abreviação, literal, de “pessoa com deficiência”.

O uso inadequado da abreviação “PcD” cria um rótulo, que deve ser evitado. A deficiência não define uma pessoa, por isso não também não deve caracterizá-la.

É comum ver frases como: “fulano tem um filho PcD”, “a escola não está adaptada para receber os alunos PcD”; “a venda de carros PcD garante isenção de impostos para quem precisa” etc.

Todos estes exemplos estão errados. Faça um exercício: monte a frase sem a abreviação, se ela fizer sentido, você estará utilizando o termo PcD da maneira correta.

Exemplo: “fulano tem um filho PcD”. Você usaria: “fulano tem um filho pessoa com deficiência”? Não. Então não deve ser usado de forma abreviada.

A frase correta é: “fulano tem um filho com deficiência”. Não podemos deixar que nossa “preguiça” seja maior que a luta de um setor inteiro.

Se possível, evite o termo PcD. Como ele é frequentemente utilizado da maneira errada, muitas pessoas com deficiência já não gostam mais dessa terminologia. Porém, se for utilizá-lo, faça da maneira correta.

Cuidado com as palavras. Elas são importantes!

*Denis Deli é jornalista e palestrante, especializado na inclusão da pessoa com deficiência.
ONG Sorriso Novo
ONG Sorriso Novo
Olá! A ONG Sorriso Novo é uma organização sem fins lucrativos e nasceu do sonho de seus fundadores em difundir ações solidárias nas mais diversas áreas, tais como: saúde, artes em geral, infância e adolescência, esporte, congressos e palestras, educação de pessoas carentes, idosos, população de rua, comunidades carentes. Desde 2001 temos atuado no Complexo da Maré promovendo diversas contribuições às famílias da comunidade. Com pouco mais de 10 crianças deficientes apadrinhadas, atualmente buscamos firmar projetos e parcerias a fim de aumentar o nosso alcance e ser capaz de oferecer maior assistência a população carente.

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